terça-feira, 7 de novembro de 2017

Aeronáutica Quer Mudar o Programa Espacial e Implantar Nova Governança

Olá leitor!

Segue abaixo uma matéria publicada na edição de setembro do “Jornal do SindCT” destacando que a Aeronáutica quer mudar o Programa Espacial e implantar Nova Governança.

Duda Falcão

CIÊNCIA E TECNOLOGIA - 2

Aeronáutica Quer Mudar o Programa
Espacial e Implantar Nova Governança

GT Propôs Criação de Conselho Interministerial e Comitê Executivo

Na visão do  comandante da FAB, tenente-brigadeiro Nivaldo Rossato, falta
harmonia entre  o PEB e o Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE).
“Existe um modelo de governança  errado”, disse ele a uma comissão do Senado

Por Pedro Biondi*
Jornal do SindCT
Edição nº 61
Setembro de 2017

O governo federal segue operando em busca da reestruturação  do Programa Espacial Brasileiro (PEB). O comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro  Nivaldo Luiz Rossato, tratou abertamente desse plano em audiência realizada no Senado Federal no dia 26 de setembro. Falando  à Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT), Rossato atribuiu  os problemas da área ao atual modelo de governança e defendeu mudança que, segundo informou, está em tramitação. 

De acordo com a fala do oficial-general, amparada em apresentação  de PowerPoint, falta harmonia entre o Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), coordenado  pela Agência Espacial Brasileira (AEB), e o Programa Estratégico de Sistemas Espaciais  (PESE), liderado pela Aeronáutica. Rossato listou o que seriam as falhas estruturais  do conjunto: falta de direcionamento estratégico e de prioridade, ações descentralizadas nas demandas  por produtos, deficiência em recursos humanos. “Existe um modelo de governança  errado. Ele não  está adequado”, pontuou.

“Nossa proposta é uma  mudança do modelo atual. Simples assim? Sim. Talvez eu esteja sendo muito  sintético, mas como diz uma regra, na guerra só dá certo o que é simples”.  O palestrante, que comanda a Força Aérea Brasileira desde janeiro de  2015, no início do segundo governo de Dilma Rousseff, detalhou proposta apresentada  por um grupo de trabalho (GT) interministerial, criado em outubro daquele ano para assessorar  temporariamente os ministros da Defesa e da Ciência, Tecnologia e Inovação  — à época, Jaques Wagner e Aldo Rebelo. Ele recordou a principal  recomendação do GT: criar o Conselho Nacional  de Espaço e o Comitê Executivo de Espaço.

Nesta página e na seguinte reproduzimos alguns dos slides
exibidos no Senado pelo brigadeiro Rossato.

“Esse comitê trabalharia em  cima dos programas, da política, do orçamento e dos acordos que deveriam  ser feitos. Ele teria toda essa definição do que queremos  do nosso espaço”, explicou. Segundo seu relato, as proposições seguiriam  para o Conselho, constituído pelas pastas da Ciência, Tecnologia, Inovações  e Comunicações (MCTIC), Defesa,  planejamento  e Casa Civil. “Tomariam a decisão e essa decisão viria para  dentro da AEB, para dentro do Comando da Aeronáutica, do INPE [Instituto  Nacional de Pesquisas Espaciais] ou de outros  entes envolvidos, para execução desse orçamento  de acordo com os projetos que fossem priorizados”. A AEB, acrescentou, “teria  um orçamento interno e seria responsável por  toda a execução de acordos com outros países, com outras companhias do  mundo inteiro”.

Contraponto (1)

O secretário de Comunicação  e Cultura do SindCT, Gino Genaro, considera que o PESE não  pode ser confundido com o Programa Espacial Brasileiro, cujas diretrizes são  dadas pelo PNAE.

“Enquanto o PESE tem cunho operacional e volta-se às  necessidades militares em comunicações, imageamento,  meteorologia etc., o PNAE visa o desenvolvimento  e a busca da autonomia nacional no uso do espaço, por meio de bases de lançamento, veículos  lançadores e satélites projetados e fabricados no país”, diferencia. 

Genaro relativiza o caráter dual atribuído às iniciativas do PESE: “Talvez seja uma tentativa de obter mais apoio no  governo e no Congresso,  mas o programa possui claramente um objetivo estratégico ligado à área  de Defesa e é conduzido pelas Forças Armadas, ao passo que o PNAE é, por definição, eminentemente  civil”.

Quanto à aventada mudança de governança, Genaro pondera que pode ser positiva e garantir à área o  status de política de Estado. “Agora, é preciso saber em detalhe como serão a composição e o funcionamento  do Conselho. O assunto vem sendo tratado de maneira  muito fechada, sem a devida participação de todos os atores do setor. Mesmo as conclusões do GT  nunca foram oficialmente tornadas públicas”, diz.



Tarjas

Em sua fala aos senadores, o brigadeiro Rossato  apresentou lâminas que alertam para a ultrapassagem do Brasil na área por  países da América do Sul e para o orçamentário dedicado, muito inferior ao de Estados Unidos, Rússia,  China, Índia e Argentina tanto em termos absolutos  como relativos.

“Nós podemos dizer nesse diagnóstico  que os recursos foram inconstantes e não foram  priorizados”, criticou. O gráfico sobre os recursos aplicados, no entanto,  mostra crescimento quase constante do valor total  nos governos de Lula.

Nos mandatos de sua sucessora, queda livre, que, continuada  no período Temer, faz a curva regredir ao patamar  de 2003. A sequência de slides crava tarjas vermelhas  com comentários negativos sobre o quadro de investimentos do PNAE, o  Veículo Lançador de Satélites (VLS, dado ali como irrecuperável), a parceria  binacional da extinta Alcântara Cyclone Space e o acordo com a NASA para  uso da Estação Espacial Internacional. 

Da exposição consta, ainda, a transformação do Centro de Lançamento  de Alcântara (CLA) em “Centro Espacial”, com o destaque “Elevado  potencial para comercialização de operações de lançamento” e mapa que  exibe a expansão pretendida pelo Ministério da  Defesa na franja litorânea da península maranhense, em localidade também  reconhecida como território quilombola (conforme  relatado no Jornal d  SindCT, ed. 60).

Na descrição  da estratégia para o fortalecimento do PEB, um dos itens é a aprovação  de acordos de salvaguardas tecnológicas (de proteção comercial) com  diversos países.

Contraponto (2) 

O presidente do SindCT, Ivanil Elisiário, questiona as soluções em  andamento para o PEB.
“Uma reestruturação como essa tem de considerar  de forma prioritária a revitalização dos institutos  públicos de pesquisa”, diz.

“Estão em pleno processo de extinção, e a indústria  não tem maturidade para assumir um programa independente deles.”  Ivanil avalia como “um equívoco muito grande” a possibilidade de privatizar  um setor que o Estado brasileiro ainda não  domina. Ele defende que o investimento público  garanta a sustentabilidade econômica, como indutor, para chegar a uma escala  de projetos que permita “transbordar” para a iniciativa privada e aí consolidar um parque industrial nessa especialidade. 

Outra preocupação levantada é a falta de projetos mobilizadores — desafios  tecnológicos capazes de gerar orçamento e nuclear postos de trabalho. “O IAE está sem projeto mobilizador”, observa. “O  VLM [Veículo Lançador de Microssatélites] não é um. Sem o DLR [agência  espacial alemã], não teria futuro. O INPE, com o fim da série CBERS, também  ficará sem”.

O dirigente alerta para a perda de força de trabalho  nas unidades que executam o Programa Espacial. “Em 1987, éramos  4.100. Hoje somos 1.600”, diz referindo-se ao Departamento  de Ciência e Tecnologia Aeroespacial  (DCTA).

“Em 2020, com base na idade e no tempo de contribuição dos servidores,  a estimativa é que seremos apenas 890. No  INPE, o quadro passou de 2.080 para 920, e deve cair para 520”. Caso se concretize o  loteamento de “fatias” do atual CLA para outros países, Ivanil chama atenção para a importância de garantir  contrato de locação e a destinação do montante  arrecadado ao próprio PEB. “Mas é algo que não  existe hoje. Tudo que explora utilidades brasileiras vai para o caixa do Tesouro”,  ressalva.

* O autor é jornalista. Especial para o SindCT 


Fonte: Jornal do SindCT - Edição 61ª - Setembro de 2017

Comentário: Galera é muito cacife para pouco índio. Não sou contra a criação de um Conselho Espacial que defina um caminho a ser seguido pela Politica Espacial, e assim ser passado para AEB (órgão executor). Porém seria muito mais fácil e produtivo colocar a AEB sob a batuta direta da Presidência da República (como uma espécie de ministério) transformando assim definitivamente o PEB em Programa de Estado. O estabelecimento de um escritório de apoio politico em Brasília onde ficaria o presidente da Agencia para dar suporte à Presidência da Republica, contatos com o Congresso e a eventuais acordos internacionais, e a transferência de toda a sua estrutura para onde ela deveria estar, ou seja, em São José dos Campos (SP), ao lado do IAE, INPE, IEAv, IFI, orientando os institutos a seguirem a Politica Espacial estabelecida pelo Conselho, fornecendo recursos e cobrando por resultados. Porém leitor, qualquer caminho que seja adotado ele tem de partir de alguns princípios básicos para que se obtenha resultados, ou seja, seriedade e competência, coisas que atualmente não fazem parte da atual gestão de nossa Agencia Espacial de Brinquedo (AEB) e muito menos do Governo TEMER.

6 comentários:

  1. A discussão é pertinente mas como sempre não aborda problemas cruciais. Basicamente pede dinheiro e mais funcionários...
    Não se fala que a legislação emperra todo o processo de desenvolvimento científico. Um exemplo prático - o problema que aconteceu com a reconstrução da torre de lançamento do VLS , aconteceria novamente. O problema da licitação da rede elétrica do VLS aconteceria novamente. A paralisia dos contratos feita pelos orgãos jurídicos continuaria. E por aí vai... Isso sem tocar na mentalidade vigente dentro dos institutos públicos que não priorizam os objetivos.
    Continuo sem ver uma solução verdadeira em discussão.

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  2. Acredito que a criação de uma Agência Espacial Sul Americana, envolvendo vários países seria a melhor solução, seguindo o exemplo da ESA.
    Mas é necessário comprometimento, honestidade, conhecimento e recursos, infelizmente falta tudo isso no Brasil e mais um pouco.
    A situação é triste.
    prof. Miraglia

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  3. O problema do Programa Espacial Brasileiro está, justamente, nesta mistura, pouco ou nada palatável, entre programas civis e programas militares. Há uma encrenca dentro do DCTA que não se resolve facilmente, porque os pesquisadores civis nunca aceitaram ser comandados por militares. Eu, particularmente, acho que isto é idiotice, mas os caras são concursados, têm estabilidade e se apegam a isto para fingir indignação, quando deveriam estar usando esta energia para construir e não para criar desavenças. No INPE, a coisa não é muito diferente; apesar de ser 100% civil, convive com facções internas que não permitem o crescimento da equipe, que vai levando com a barriga até se aposentar, com bons salários. Claro, que no meio dessa turma toda, tem muitos bons profissionais, mas que se deixam levar na onda, principalmente, porque o PEB nunca teve recursos suficientes e nem objetivos claros e mensuráveis. Concordo que o PEB precisa ser convertido em um programa de Estado, mas o Programa de Defesa Nacional, que deveria ser tratado de forma igual, carece de muito recurso não disponível e de ajustes quanto à mistura do civil com o militar. Por exemplo, o decreto 6.703 define que o foguete de lançamento de satélites brasileiro também será utilizado para lançamento de mísseis. O que sempre foi combatido pelos americanos, o Lula deu conta de instituir como regra. Quanto à AEB, em Brasília, concordo que não faz o mínimo sentido.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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    Respostas
    1. Espero que você não esteja que o Vitória ganhe do meu Cruzeiro dia 19 de novembro...

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    2. Relaxe Bernardino!

      O Cruzeiro vai atropelar os Urubus, e ele voltarão pra casa.

      Abs

      Duda Falcão
      (Brasília Space)

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