quinta-feira, 22 de junho de 2017

INPE e Aeronáutica Desenvolvem Motor e Combustível Sustentável para uso em foguetes e satélites

Olá leitor!

Segue abaixo um artigo publicado na a edição de Junho de 2015 da “Revista Pesquisa FAPESP” destacando que a FAB e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) estão desenvolvendo Motores a Combustível Sustentável para uso em Foguetes e Satélites.

Duda Falcão

TECNOLOGIA

Propulsão Verde

INPE e Aeronáutica desenvolvem Motor e Combustível
Sustentável Para Uso em Foguetes e Satélites

YURI VASCONCELOS
Revista Pesquisa FAPESP
ED. 256 - JUNHO 2017

© LÉO RAMOS CHAVES
Sequência da reação química entre gota de
peróxido de hidrogênio e o combustível formado
por etanol, etanolamina e sais de cobre. A
temperatura chega a 900 ºC e os gases fariam a
propulsão de um satélite em órbita. O experimento
foi realizado no INPE, em Cachoeira Paulista.
Utilizar um combustível renovável para foguetes e satélites, com baixo índice de toxicidade, menos agressivo à saúde humana e mais amigável ao meio ambiente, é o objetivo de dois grupos de pesquisa brasileiros, um do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e outro no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), braço de pesquisa do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) do Comando da Aeronáutica. No INPE, cientistas do Laboratório Associado de Combustão e Propulsão (LCP), em Cachoeira Paulista (SP), desenvolveram um novo combustível espacial, também chamado de propelente, que tem entre seus ingredientes o etanol e o peróxido de hidrogênio, a popular água oxigenada. Um diferencial do combustível é que ele não precisa de uma fonte de ignição, como uma faísca, para entrar em combustão e fazer o motor funcionar. No IAE, em São José dos Campos (SP), a pesquisa foi realizada em conjunto com o Centro Aeroespacial Alemão (DLR), direcionada ao desenvolvimento de um motor para veículos lançadores de satélite que funcione com etanol e oxigênio líquido.

Os principais propelentes utilizados em foguetes e satélites são a hidrazina, que é o combustível, e o tetróxido de nitrogênio, a substância que provoca a reação de queima. Essas substâncias apresentam bom desempenho em propulsores, mas têm desvantagens. Além de serem caros, a hidrazina e seus derivados são cancerígenos, o que requer um cuidado muito grande com o seu manuseio. Já o tetróxido de nitrogênio pode ser fatal após alguns minutos de exposição, em caso de vazamento ou má manipulação.

A busca por um combustível espacial alternativo, menos nocivo à saúde e ao ambiente, não é uma exclusividade de instituições brasileiras. “Agências espaciais de vários países – entre elas a NASA, dos Estados Unidos – fazem pesquisa nesse sentido”, afirma o engenheiro Carlos Alberto Gurgel Veras, diretor da Divisão de Satélites, Aplicações e Desenvolvimento da Agência Espacial Brasileira (AEB). “Como o Brasil não domina o ciclo de produção dos propelentes tradicionais usados em motores de foguetes, desenvolver um combustível alternativo a eles seria um avanço significativo para o setor”, destaca Gurgel. Ter um combustível de fácil aquisição no país, em grande parte renovável e a preços baixos, faz parte do pacote de desenvolvimento tecnológico a ser conquistado pela indústria aeroespacial brasileira. Há mais de 20 anos, o INPE desenvolve satélites de pequeno porte de coleta de dados ambientais e, em conjunto com a China, para sensoriamento remoto, destinados à captação de imagens da superfície terrestre. Todos foram lançados por foguetes estrangeiros.

O Brasil possui tecnologia de motores de propulsão com combustíveis sólidos para pequenos foguetes usados em experimentos científicos e tecnológicos. “Nosso principal objetivo é dominar as tecnologias necessárias para o desenvolvimento de um motor de foguete movido a propelente líquido. Para lançar satélites de grande porte é imprescindível o emprego desse tipo de propulsão”, afirma o engenheiro metalúrgico Daniel Soares de Almeida, gerente do projeto no IAE.

Especialista em combustíveis de foguetes e professora do curso de engenharia aeroespacial da Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Bernardo do Campo (SP), a engenheira química Thais Maia Araujo considera importante que o Brasil trabalhe na criação de um propelente renovável para o setor. “O combustível em desenvolvimento no INPE, além de ser mais seguro e fácil de manusear, é mais barato do que os propelentes tradicionais e tem o apelo da sustentabilidade. O etanol é um combustível renovável e largamente disponível no Brasil”, comenta.

O esforço do INPE para criar um propelente espacial à base de etanol teve início há três anos. Coordenada pelo químico industrial Ricardo Vieira, chefe do LCP, a pesquisa teve a participação do doutorando Leandro José Maschio, da Escola de Engenharia de Lorena da Universidade de São Paulo (USP). Embora possa ser usado em foguetes, o novo combustível é indicado principalmente para satélites. “Nosso propelente pode ser mais bem utilizado nos chamados motores de apogeu, usados na transferência de órbita de satélites”, explica Vieira. Após serem lançados no espaço, esses aparelhos precisam se posicionar na órbita correta e o deslocamento é feito por propulsores existentes no próprio artefato.

© IAE
Maquete do foguete L75 desenvolvido
no IAE, que funciona com etanol
e oxigênio líquido.
Adição Estratégica

O novo propelente, segundo Vieira, tem uma eficiência próxima à dos combustíveis tradicionais. “A composição contém cerca de 30% de etanol, 60% de etanolamina [composto orgânico resultante da reação entre o óxido de etileno e amônia] e 10% de sais de cobre”, conta o chefe do LCP. “A adição de etanol foi puramente estratégica, uma vez que o Brasil é um grande produtor de álcool. Entretanto, durante o desenvolvimento, constatamos que o etanol aumentou o desempenho do motor, reduziu o tempo de ignição da mistura e barateou o combustível.”

Para fazer o motor funcionar, a mistura formada por etanol, etanolamina e sais de cobre reage com o peróxido de hidrogênio. “Ele funciona como um oxidante ao fornecer oxigênio para a reação, elemento inexistente no espaço. O peróxido de hidrogênio se decompõe quando entra em contato com o combustível. A reação é catalisada pelo cobre, gera calor – em torno de 900 oC –, o que provoca a ignição do etanol da etanolamina”, explica Vieira. O resultado é a produção de grande volume de gases, responsável pela propulsão desejada. A combustão espontânea é proporcionada diretamente pelo contato dos componentes químicos. A mistura é controlada por softwares e, havendo possibilidade, pela interferência de técnicos da terra.

Outra vantagem é o baixo custo. O INPE importa hidrazina por cerca de R$ 700 o quilo (kg) e tetróxido de nitrogênio por R$ 1,3 mil/kg. “Estimamos que o combustível à base de etanol e etanolamina venha a ter um custo aproximado de R$ 35/kg e o peróxido de hidrogênio a R$ 15/kg. Como um satélite carrega mais de 100 kg de propelente, a economia é grande nesse aspecto, porém relativamente pequena em relação ao custo final do aparelho”, ressalta Vieira. “Mas se levarmos em conta sua aplicação futura em estágios de foguetes lançadores de satélites, a economia passa a ser bastante significativa.”

Para demonstrar que o propelente é viável e funciona, o INPE projetou e testou em seu laboratório um propulsor empregando o novo combustível com sucesso. De acordo com Vieira, o próximo passo seria fabricar um motor maior e realizar ensaios no vácuo, simulando as condições do espaço. “Segundo o pesquisador, a AEB já demonstrou interesse em financiar a fabricação e os testes de um motor empregando o combustível à base de etanol. “Se estabelecermos bem o ciclo para a realização do projeto e encontrarmos os parceiros certos, creio que o motor movido a etanol e etanolamina pode ficar pronto em 10 anos”, afirma Gurgel.

No IAE, a equipe encarregada do projeto de um motor de foguete alimentado por etanol deu um passo importante com a realização de testes bem-sucedidos. Os ensaios foram feitos no final do segundo semestre de 2016 nos laboratórios do Instituto de Propulsão Espacial do DLR, em Lampoldshausen, na Alemanha, colaborador do IAE no projeto. O motor L75 emprega etanol de melhor qualidade do que o automotivo e oxigênio líquido. Seu nome é uma referência ao combustível líquido (L) e empuxo do motor (a força que o empurra) de 75 quilonewtons (kN) – o suficiente para tirar do chão um caminhão de 7,5 toneladas.

© IAE
Bancada de testes de motores no IAE,
em São José dos Campos.
Desempenho Duplo

O projeto do motor L75 teve início no IAE em 2008 e cinco anos depois passou a contar com a colaboração de técnicos e cientistas do DLR. Nos ensaios feitos este ano na Alemanha, foram testados dois cabeçotes de injeção de combustível com conceitos distintos, desenvolvidos simultaneamente por pesquisadores do IAE e do DLR. O objetivo dos ensaios foi verificar parâmetros de desempenho de combustão e definir a melhor tecnologia propulsiva. Os dois cabeçotes diferem na forma como o combustível é pulverizado na câmara de combustão e misturado ao oxigênio.

“Nessa primeira série de ensaios, os principais objetivos foram atingidos”, ressaltou a engenheira aeroespacial alemã Lysan Pfützenreuter, gerente do projeto no DLR. “Foi realizado com êxito um total de 42 ignições durante um período de 20 dias. Pudemos analisar de perto, entre outras coisas, o comportamento e a estabilidade do sistema durante a ignição e o arranque na câmara de empuxo.” Análises preliminares dos resultados mostraram que os dois cabeçotes tiveram desempenho similar.

A cooperação entre o IAE e o DLR remonta o final da década de 1960, quando o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), no Rio Grande do Norte, foi usado para lançar foguetes relacionados a experimentos científicos do Instituto Max Planck para Física Extraterrestre. Por volta do ano 2000, a cooperação se fortaleceu com um acordo para o desenvolvimento conjunto de um foguete de sondagem de dois estágios, que viria a ser batizado de VSB-30 e que fez seu voo de qualificação em 2004. Mais recentemente, em 2012, os alemães empregaram um foguete suborbital brasileiro, o VS-40M, para levar ao espaço o experimento Shefex II (Sharp Edge Flight Experiment), cujo objetivo foi desenvolver tecnologias-chave, como sistemas de proteção térmica, para naves espaciais com capacidade de ir ao espaço e retornar à Terra, suportando as duras condições de reentrada na atmosfera.

Segundo o IAE, ainda serão necessários cerca de 10 anos para que o motor L75 realize seu primeiro voo de qualificação, quando todos os parâmetros do propulsor serão testados. O projeto foi dividido em quatro etapas (estudo de viabilidade, projeto preliminar, projeto detalhado e qualificação) e encontra-se hoje na conclusão da segunda fase. “A próxima é elaborar o projeto detalhado, o que deve ocorrer entre 2017 e 2021. Depois, para o período 2022-2026, o motor L75 entrará na fase de qualificação, podendo, após esse período, realizar seus primeiros voos”, afirma Almeida.

© DLR
Teste do motor L75 realizado em 2016 no Centro Espacial
Alemão, em parceria com pesquisadores brasileiros.
Alternativas Pelo Mundo

A NASA e a ESA têm projetos de propelentes que podem substituir com vantagens a hidrazina
A agência espacial norte-americana, NASA, planeja testar ainda este ano um propelente alternativo à hidrazina, tradicional combustível de foguetes. Batizado de AF-M315E, ele é um líquido à base de nitrato de amônia, substância mais fácil de obter e menos perigosa de manipular que a hidrazina. Iniciado em 2012, o programa Green Propellant Infusion Mission (Missão de Desenvolvimento de Propelente Verde) da NASA conta com a parceria do Laboratório de Pesquisas da Força Aérea dos Estados Unidos, responsável pela criação do combustível, e das empresas americanas Aerojet Rocketdyne, que projetou o propulsor, e Ball Aerospace & Technology, gestora do projeto. Segundo a Ball, o novo propelente tem desempenho quase 50% superior ao dos sistemas que usam a hidrazina. Com isso, um mesmo tanque pode levar um volume maior de AF-M315E, ampliando, em tese, a duração de missões espaciais.

O novo propelente é considerado verde pelos norte-americanos porque tem vantagens ambientais, como a de ser menos tóxico do que a hidrazina. Ele será usado para manobrar um satélite de pequeno porte no espaço. Durante 13 meses, serão feitas alterações na altitude e inclinação orbital do artefato para demonstrar a viabilidade do sistema propulsivo.

A Agência Espacial Europeia (ESA) também tem candidatos a combustível verde. Um dos projetos  é o do monopropelente LMP-103S, desenvolvido pela empresa sueca Ecaps, parceira da ESA.  O principal ingrediente é uma substância conhecida como dinitramida de amônio (ADN), obtida por meio de processos químicos cujos resíduos são menos nocivos ao ambiente quando comparados aos de outros propelentes espaciais. Metanol, amônia e água também entram em sua formulação.

O novo combustível, segundo a Ecaps, é mais estável, eficiente e seguro de ser manuseado do que a hidrazina. Com ele é possível reutilizar componentes dos sistemas propulsivos que usam a hidrazina.

Projeto

Estudo da ignição hipergólica do peróxido de hidrogênio com etanol cataliticamente promovido (nº 14/23149-2); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Ricardo Vieira (IINPE); Investimento R$ 156.558,58.

OBS: Veja mais nesta reportagem exibida dia 08/04/2017 pelo Jornal da Record da Rede Record de Televisão sobre este combustível desenvolvido pelo INPE.




Fonte: Revista Pesquisa FAPESP - Edição 256 – Junho de 2015

Comentário: Bom leitor eu pensei muito se deveria ou não postar essa notícia aqui, já que sinceramente não acredito que essas iniciativas do INPE e do IAE venham realmente serem uteis algum dia para o Programa Espacial Brasileiro (PEB) e muito provavelmente, se chegarem a fabricar protótipos, os mesmos acabem como peça de museu do Memorial Aeroespacial Brasileiro (MAB), em São José dos Campos-SP, como uma lembrança de uma sociedade que não tem comprometimento com nada. É muito facil visualizar este fim melancôlico já que exemplos não faltam e também pelos fatos aqui apresentados nesta mesma matéria. Escute bem leitor, não há razão nenhuma que justifique o emprego de mais dez anos de desenvolvimento nesses projetos, afinal ja existe um conhecimento acessível enorme sobre este tema, não é de agora que se faz motores movidos a etanol e a literatura sobre o assunto e vasta e acessível a todos. Porém se o DLR estiver conduzindo o desenvolvimento de seu projeto de motor com comprometimento, não dou nem mais tres anos para que o motor alemão faça seu voo de qualificação. Mas então porque no Brasil é assim Duda? Ora leitor, fora o problema de contingenciamento de recursos contantes que o PEB enfrenta, não há compromisso nenhum do governo em realizar nada que não venha colaborar com os seus interesses nefastos, e como não há esse compromisso, não há cobrança, e não havendo cobrança de quem quer que seja, fica cada um por si defendendo o seu, e nada melhor num universo como esse esticar o projeto e permanecer no emprego até que surja algo melhor. Triste, mas é esta a nossa realidade. Monte uma equipe de Engenheiros Aeroespaciais séria, comprometida e motivada, forneça os recursos financeiros e logísticos necessários e cobre por resultados que em três ou quatro anos esta equipe desenvolve um protótipo de voo de um motor tipo o L75. O resto é conversa fiada. Aproveito para agradecer ao leitor Cláudio André pelo envio dessa matéria e ao leitor Jahyr de Jesus Brito pelo envio do vídeo.

2 comentários:

  1. se algum dia o motor-foguete L75 desenvolvido
    no IAE, que funciona com etanol
    e oxigênio líquido funcionar como esperado , também de imediato teremos o motor-foguete L-300 , com a armação conjunta de 4 L-75 unidos em um só motor-foguete.

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  2. " DOS PROPELENTES HIPERGÓLICOS DE IGNIÇÃO ESPONTÂNEA AOS FUTURÍSTICOS L-75"

    A dinâmica do conhecimento no mundo ESPACIAL, depende de pesquisas e técnicas que vêm sendo estudadas para o desenvolvimento físico e intelectual de uma sociedade que domine este tipo de tecnologia complexa e restrita. A partir de novas pesquisas de novos vetores de potência propulsiva. A pergunta é: - O Brasil tem capacidade científica e excelentes cientistas ? A resposta é unanime: - Sim!!!! Descobrem novos métodos evolutivos da química propulsiva, essenciais para o desenvolvimento e garantia de um ISP (Impulso Específico), ideal para gerar energia suficiente para chegarmos, além dos 100 Km, e muito mais. A capacidade do nossos exemplares pesquisadores, doutores do Lab. Asoc. de Comb. e Propulsão ( LCP), me enche de ORGULHO!! descobrir como manipular os Hipergólicos menos agressivos, é puramente fantástico, pelos fatores de alerta, que estão relacionados sobre: manuseio; transporte; armazenamento; corrosividade, toxidez e risco de explosão.
    De tal forma, é perceptível quanto deve ser valorizado e aprimorado cada vez mais o trabalho científico no Brasil. O conhecimento de novas técnicas e de novos horizontes consegue dinamizar o mundo da tecnologia de motores de foguete,a reagir com novos paradigmas. Quando mais técnicas são descobertas, mais capacidade o (LCP)tem acesso para desenvolver novos vetores de potência. Essa cadeia do conhecimento contribui de forma significativa para o desenvolvimento da percepção dos cientistas e engenheiros espaciais e para o progresso do PEB.
    É possível imaginar o quando o conhecimento vem progredindo em passos de formiga, ao longo destes anos notei que agente perde muito tempo, vejam bem!!! Para concluir a fase Conceptual, leva 5 anos, para a fase preliminar, mais 5 anos, para a fase detalhada, mais 5 anos, somatório total = 15 para se concluir um projeto, e tem mais, quando vai lançar, BOM!! BOM!! quando não explode na plataforma, da chabu antes do apogeu. Aí me de uma garapa bem gelada!!!.

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