terça-feira, 24 de março de 2015

O Primeiro Satélite "Amador" Brasileiro

Olá leitor!

Em agosto de 2011 postamos aqui no Blog uma informação de que diferentemente do que a maioria imaginava o primeiro satélite brasileiro não teria sido o Satélite de Coletas de Dados SCD-1 do INPE (este sim o primeiro satélite profissional do Brasil) e sim o microsatélite amador “DOVE (Digital Orbiting Voice Encoder)”, ou “OSCAR 17” como também ficou conhecido (veja aqui), este desenvolvido pelo visionário radioamador “Junior Torres de Castro (PY2BJO)”. Pois então, agora eu trago um interessante artigo que conta a história deste satélite e de seu idealizador, artigo este postado dia (09/02) pelo nosso leitor Bernardino C. da Silva em seu “Blog BRAZIL IN THE SPACE”. Vale a pena dar uma conferida

Duda Falcão

O Primeiro Satélite "Amador" Brasileiro

Bernardino C. da Silva
09 de fevereiro de 2015

“É muito fácil criticar os pioneiros, encontrar seus erros e enganos.
Mas quando foi necessário arriscar a pele ou colocar em jogo o próprio
nome, somente eles tiveram coragem de se aventurar.
Lucêmio Lopes da Anunciação”

Dr. Júnior Torres de Castro (2011)

A história de paixão e obstinação do Dr. Júnior Torres de Castro pelo radioamadorismo e pelos satélites - um brasileiro de Botucatu (SP), simboliza, a meu ver, a essência do que se resume a luta por desenvolver tecnologias e meios de acesso ao espaço, especialmente numa época que ainda poucos países dominavam a área.

Modelo de engenharia do Little Brick.
Castro passou a sonhar em construir um satélite, quando tinha 24 anos, já formado em Engenharia Civil (Mackense), depois de ouvir, com curiosidade e interesse, o bip bip do Sputnik, lançado pelos soviéticos no dia 4 de outubro de 1957 e que inaugurou a Era Espacial. A partir daí, Castro foi acalentando este sonho durante 33 anos,  período em que participou de diversos congressos e cursos ligados à área espacial nos Estados Unidos e na Europa. Também se formou em Engenharia Elétrica (USP), Engenharia Eletrônica (University of Columbia), além de ter feitos os cursos de geologia e geofísica (Suécia) e um PhD em Física. Como empresário, Castro tinha uma empresa de perfuração de poços artesianos.

"Castro é um exemplo para cientistas e estudantes. Tem a obsessão dos grandes realizadores" teria dito o Dr. Márcio Nogueira Barbosa, que foi Diretor Geral do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) entre 1989 e 2001. Mas segundo relatos do próprio Castro, para diversos órgãos de imprensa que o entrevistaram logo após o lançamento de seu satélite, a coisa nem sempre teria sido assim. De acordo com ele, no princípio, quando começou a participar de cursos e congressos internacionais, junto com renomados pesquisadores, se sentia um "peixe fora d'água" e sentia que era visto com desconfiança, por não ser do meio científico e acadêmico. Mas ele continuava na luta e, com o passar do tempo e de dezenas de viagens ao exterior ganhou experiência e prestígio junto à comunidade científica internacional.


Em 1976, com as orientações que recebera de diversos cientistas, Castro comandou a criação do Little Brick (Tijolinho), a primeira versão de um satélite, que era equipado com sintetizador de voz e transmitia palavras inteligíveis. Ele conseguiu montar um modelo de engenharia, ao custo de US$ 5 mil, tendo utilizado componentes de mercado, o que, embora funcionasse com perfeição na terra, não poderia ser colocado em órbita, porque os componentes utilizados não suportariam o ambiente espacial.

Estas restrições não impediram Castro de colocar o "Tijolinho" debaixo do braço e comparecesse com ele em um congresso da Universidade de Utah (EUA), realizado em 1977, na Cidade de Salt Lake City.

Sob olhares curiosos de cientistas presentes, Castro colocou o modelo de engenharia do satélite sobre uma mesa e, do outro lado da sala, começou a receber os sinais transmitidos por ele, em viva-voz. Depois disso, Castro mudou-se para Bolder, nos Estados Unidos e enviou cópias de seu projeto para fabricantes de equipamentos espaciais, devidamente acompanhadas por cartas de recomendação de cientistas importantes da época, que acreditaram na viabilidade de seu projeto e, principalmente, pelo objetivo da missão que pretendia ser a pregação da paz entre os povos, através da difusão de mensagens. Sem esse apoio dos cientistas não teria sido possível a compra de componentes qualificados para uso espacial.

O DOVE sendo instalado base
da coifa do Ariane-4.
Com peças doadas ou vendidas a preço de custo ou preços simbólicos, o micro satélite "Brasil Peace Talker", também batizado por DOVE (Digital Orbiting Voice Encoder), que também significava "Pomba da Paz" [1] finalmente ficou pronto e seu custo inicialmente previsto para US$ 4 milhões, acabou reduzido para US$ 225 mil. Parte deste investimento (US$ 120 mil, fora outras despesas com viagens, etc.) foi feito por Castro e o restante pela AMSAT Brasil (Rádio Amateur Sattelite Corporation) [2].

Para o mundo dos Radioamadores, este micro satélite era o OSCAR 17 [3].

O micro satélite, na forma aproximada de um cubo, com 226 x 226 x 223 mm e 12,92 kg de massa bruta, foi construído em um laboratório no Colorado (EUA), juntamente com mais três micro satélites idênticos no formato, tendo sido dois para a Universidade de Utah e um para a Argentina. Cada instituição definiu a sua própria missão e construiu a carga útil.

A montagem final e os testes ambientais do DOVE foram feitos no CNES (Centre Spatial Guyanais), na Guiana Francesa. Seu lançamento foi feito a partir da base espacial de Kourou, em Caienna, na Guiana Francesa, a bordo do foguete Ariane 4, as 21:30 horas do dia 21 de janeiro de 1990.

Ele foi lançado a uma órbita de 850 km, para circular a terra durante 100,8 minutos com inclinação de 98º. Sua potência de transmissão era de 4 W e, além de transmitir as mensagens de paz, transmitia os valores dos sistemas de bordo, como nível de tensão da bateria, situação dos painéis solares. [4]

O micro satélite DOVE tinha uma característica única: uma saída de transmissão de voz digitalizada, bem como gravações de voz digitalizadas em terra e que deveriam ser carregadas no computador de bordo para retransmissão. Eram mensagens de crianças dos Estados Unidos, Rússia, França, Índia e Vietnam. Pela primeira vez também foi utilizada a técnica SMD de montagem dos componentes nas placas eletrônicas, como acima.

O DOVE teve uma vida útil estimada em 6 anos, mas ficou operando até março de 1998, quando sua bateria descarregou e teve uma avaria no computador de bordo.


1] No Cristianismo e no Judaísmo a pomba branca representa a paz, vindo esta imagem do Velho Testamento, quando Noé teria soltado um pombo branco para verificar se havia terra por perto e ele retornou carregando um ramo de oliveira no bico.

[2] O Dr. Júnior Torres de Castro foi Presidente da ANSAT norte americana por quatro mandatos seguidos (8 anos). Deve-se ressaltar que, pelo objetivo da missão, que era transmitir mensagens de paz entre os povos, nada foi cobrado pelo lançamento do DOVE.

[3] Todos os satélites construídos por Radioamadores e patrocinados pela AMSAT, depois de entrar em operação, recebiam um número depois de OSCAR (Orbital Satellite Carrying Amateur Radio). O primeiro foi lançado em 1961 e, até o ano de 2002, existiam 50 OSCAR's em operação.

[4] O DOVE foi lançado na companhia dos seguintes satélites: SPOT 2, UoSAT 3, UoSAT 4, Webersat, Pacsat e o argentino Lusat.


Fonte:  Blog BRAZIL IN THE SPACE - http://brazilinspace.blogspot.com.br/

Comentário: Primeiramente devo parabenizar ao Bernardino C. da Silva por resgatar a história deste satélite através da iniciativa de escrever este artigo. Costumo dizer entre meus familiares e amigos que se deve dar a “Cesar o que é de Cesar” reconhecendo quem realmente fez algo de relevante (apesar das dificuldades herculanas) na história deste Território de Piratas. Qualquer Nação que se preze cultua seus heróis e se vale de suas histórias de vida para fazer valer entre o seu povo o seu exemplo, bem como também a necessidade de continuar apostando no futuro. Porém isto só é possível numa nação de verdade e o Brasil jamais se aproximou de algo como uma nação. Nosso povo é ignorante, corrupto, oportunista e só pensa no seu próprio umbigo, coisas que não ajudam em nada a construir uma verdadeira sociedade progressista e de futuro. Portanto, quando observamos iniciativas como esta de reconhecimento aos verdadeiros brasileiros do Bernardino C da Silva, temos de cita-las como exemplo, e esperar que algum dia (na história ainda a ser escrita desse Território de Piratas) pessoas como o Dr. Júnior Torres de Castro sejam maioria, não só entre aqueles que como ele fazem a diferença no setor de C&T do país, mais principalmente dentre aqueles que detêm o poder econômico e político, oriundos ou não da Classe Dominante. Chega de COLLORS, ITAMARS, CARDOSOS, LULAS, e OGRAS da vida, gente que não presta e que não contribuem em nada para o verdadeiro desenvolvimento e amadurecimento da Sociedade Brasileira. Uma vez mais Bernardino, parabéns pelo seu artigo.

Um comentário:

  1. Lembro de falar sobre este satélite brevemente nos jornais brasileiros. mas logo a história foi esquecida pois não era algo governamental etc. Parabens a Dr. Júnior Torres de Castro, com certeza é gente que faz este país melhor, apesar de tudo.

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