quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Blog Entrevista o Gerente no ITA do Projeto ITASAT-1

Olá leitor!

Professor David Fernandes
Gerente no ITA do Projeto ITASAT-1
Seguindo com as entrevistas da série “Personalidades do Programa Espacial Brasileiro”, segue abaixo a entrevista com o gerente no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) do projeto do satélite universitário ITASAT-1, ou seja, o professor da Divisão de Eletrônica do ITADavid Fernandes, ao qual agradeço publicamente mais uma vez por nos conceder essa nova entrevista esclarecedora sobre esse importante projeto em curso no ITA, no INPE e em outras diversas instituições universitárias do Brasil.

Vale lembrar que o Prof. David Fernandes já havia nos concedido uma entrevista sobre o Projeto ITASAT publicada aqui no blog em 08/07/2010, que pode ser acessada pelo leitor clicando aqui.

Caro leitor, diante do que foi dito pelo professor David Fernandes e pelo Dr. Luis Loures do IAE em sua entrevista concedida ao blog recentemente (veja aqui), sobre a possibilidade técnica de uma Missão Conjunta que envolvesse o lançamento do Microsatélite ITASAT-1 através do voo de qualificação do VLM-1 em 2015, é clara a sintonia de interesses entre as duas equipes, e sinceramente não vejo problema para que se tenha esse objetivo como uma meta a ser cumprida, bastando para isso, em minha opinião, que os playes envolvidos (ITA, INPE, IAE, entre outros) sejam estimulados pelo 'Governo DILMA ROUSSEFF' a buscar essa conquista.

Assim sendo, pergunto a você leitor: Você estaria realmente disposto em ajudar o blog, assinando e divulgando uma Petição Pública Online que apoiasse a nossa campanha “MISSÃO VLM-1/ITASAT-1 2015”? Estaria você realmente comprometido a trabalhar em busca desse objetivo, fazendo valer a sua 'cidadania' lutando em prol do verdadeiro Programa Espacial Brasileiro?

Bom, segue abaixo a interessante entrevista com o Professor David Fernandes.

Duda Falcão

BRAZILIAN SPACE: Professor David Fernandes, para aqueles leitores que não o conhece nos fale sobre o senhor. Sua idade, formação, onde nasceu, trajetória profissional e desde quando o senhor trabalha no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA)?

PROF. DAVID FERNANDES: Tenho 59 anos, nasci na cidade de São Paulo mas moro em São José dos Campos desde 1979, ano que ingressei no CTA, inicialmente no setor de homologação aeronáutica do IFI e a partir de 1982, até o presente momento, como professor do ITA na Divisão de Engenharia Eletrônica. Sou engenheiro eletrônico pela Escola Politécnica da USP (1977), mestre e doutor em engenharia eletrônica pelo ITA (1985 e 1993). A partir de julho de 1995, por um período de 19 meses, fiz o meu pós-doutorado no Instituto de Microondas e Radar do Centro Alemão de Pesquisa Aeroespacial (DLR). Minha área de ensino e pesquisa é telecomunicações,  com ênfase em processamento de sinais de Radar e processamento de imagens de Radar de Abertura Sintética. A minha participação no ITASAT iniciou em 2009 quando o Reitor do ITA me nomeou gerente do projeto.

BRAZILIAN SPACE: Professor David, quando realmente teve início o desenvolvimento do microsatélite ITASAT-1 e qual é o seu principal objetivo?

PROF. DAVID FERNANDES: A ideia de se projetar implementar e operar um satélite  universitário, que foi chamado de ITASAT,  começou se materializar, pelos registros que eu tenho,  no fim de 2005. Convém informar que em anos anteriores a ideia já era discutida por alunos da graduação do ITA com profissionais do INPE e da AEB.

Esse projeto financiado pela AEB, que também é o gerente geral, teve duas grandes fases.

A primeira fase  durou até o final de 2008, onde se enfatizou bastante: a) formação de recursos humanos (grande envolvimento de estudantes de graduação e pós- graduação não só do ITA mas de outras instituições de ensino e b) concepções de microsatélites e de seus subsistemas.

De uma resolução conjunta entre a AEB, o INPE (assessor técnico do Projeto) e o ITA (responsável pela execução do Projeto) , a partir de 2009, sem se perder o foco na formação de  recursos humanos,  o projeto começou a focar mais no projeto do satélite em si, procurando concentrar esforços para se ter de fato um satélite concreto, o ITASAT-1.

Como resultado deste novo enfoque foram realizadas revisões formais,  com a presença de especialistas do INPE do IAE e de especialistas do exterior, convidados pela AEB, com experiência prática em microsatélites e em especial em satélites universitários.

Foram realizadas as revisões  MDR (Mission Definition Review) em fevereiro de 2010, o PRR (Preliminary Requiremente Review) em março de 2010, o SSR (System Requirement Review) em setembro de 2010 e o PDR (Preliminary Design Review) em julho de 2011. A próxima revisão é o CDR (Critical Design Review) que ainda não foi marcada mas provavelmente ocorrerá em meados do segundo semestre de 2013.

Modelo do satélite ITASAT-1 com painel
solar em quatro laterais e no topo
Modelo da configuração interna

BRAZILIAN SPACE: Professor, quando o satélite ficará pronto, já foi escolhido o lançador e já existe uma previsão realista de quando será o seu lançamento?

PROF. DAVID FERNANDES: O CDR do satélite que ainda não foi realizado é uma revisão muito importante e o êxito nesta etapa dará uma maior garantia de quando o satélite ficará de fato pronto. Com o CDR realizado e aprovado a próxima etapa e a de construção do modelo que irá ser lançado.

Como previsão eu diria que meados de 2014 é uma data de referência para o satélite estar pronto.

Ainda não foi escolhido o lançador, mesmo porque a contratação de um lançador requer bastante certeza na data em que o satélite estará pronto.

As incertezas se devem a algumas características do projeto:

a) O Satélite ITASAT-1 é um microsatélite universitário, isto é, projetado e em parte construído por estudantes, com a supervisão de professores, pesquisadores e engenheiros. Os estudantes ficam por tempos curtos no projeto, podem deixar o projeto facilmente e a sua dedicação ao projeto é dividida com as suas obrigações acadêmicas.

b) O ITASAT-1 acabou ficando um satélite complexo (massa aproximada de 80 kg, dimensões  aproximadas de 60x60x58 cm), que em nada pode ser comparado, por exemplo, com um CUBSAT de aproximadamente 10x10x10cm e massa por volta de 1kg.

c) A procura de componentes (sem restrições de importação, de qualidade elevada, quando for o caso de baixo consumo etc) e a sua compra (prazo de entrega, quantidade, restrições de legislação) também são tarefas de certa complexidade que impactam o desenvolvimento do projeto.

Apesar do lançador ainda não ter sido escolhido, no planejamento da missão ITASAT, considerando-se que ele será lançada como carona (carga não principal de uma lançador), examinou-se varias opções de possíveis lançadores e orbitas, de modo que o projeto possa atender a uma ampla família de possíveis lançadores. Isso também é um fator complicador para o projeto, pois o projeto estrutural da plataforma, do seu acoplamento com o lançador, e o projeto dos equipamentos devem prever esforços e vibrações a que serão submetidos.

BRAZILIAN SPACE: Professor, recentemente fizemos uma entrevista com o Dr. Luis Loures, gerente do Programa do VLM-1 do IAE. Na ocasião questionamos ao mesmo sobre a possibilidade de lançar o ITASAT-1 em 2015 através do voo de qualificação do VLM-1. Ele nos disse que certamente existiria o potencial para o lançamento desse satélite pelo VLM-1 devido à sua massa, mas essa possibilidade deveria ser avaliada em conjunto com a AEB e com o DLR. Sob o ponto de vista técnico, eles teriam que avaliar a missão do ITASAT-1 para verificar se poderiam atendê-la já nesta primeira versão do veículo ou, em caso negativo, se haveria como alterar esta missão de maneira a poderem atendê-la. Mesmo antes dessa entrevista o blog já havia lançado uma campanha intitulada “Missão VLM-1/ITASAT-1” visando à mobilização de nossos leitores e da sociedade como um todo para exigir da AEB e do governo DILMA ROUSSEFF que estabelecesse junto aos players envolvidos (IAE, INPE, ITA entre outros) a meta de realizar essa missão conjunta em 2015. Como coordenador do Projeto do ITASAT-1, o que o senhor acha de nossa iniciativa e existiria interesse de sua equipe em se articular com a equipe do Dr. Luis Loures visando esse objetivo?

PROF. DAVID FERNANDES: A equipe do ITASAT já teve um contato com o Dr. Loures do IAE e o dialogo entre nós é muito bom. Havendo uma real possibilidade técnica dos projetos cooperarem, com certeza não haverá nenhum obstáculo para que isso se realize, inclusive vale ressaltar que tanto o IAE quanto ao ITA estão dentro do DCTA e por isso já estamos naturalmente ligados.

De uma reunião que tivemos a aproximadamente dois anos atrás, lembro que um problema técnico que detectamos era a massa elevada do ITASAT  e a sua orbita, entre  450km e 600km, impunham uma restrição na utilização da primeira versão/missão do VLM-1, ou seja,  o VLM-1, a principio, não atenderia este requisito do ITASAT-1.

De qualquer modo como estamos revisando os dados da massa do ITASAT, que deverá diminuir, com a otimização das interligações dos equipamentos (cablagem) e o reprojeto de algumas caixas de equipamentos, certamente teremos uma nova reunião com a equipe do Dr. Loures, durante e após o CDR.

BRAZILIAN SPACE: Professor é sabido que durante o processo do desenvolvimento do ITASAT-1 houve a participação de diversos alunos do ITA e de outras instituições de ensino, inclusive uma alemã. Quantos estudantes efetivamente fizeram parte do desenvolvimento desse satélite e quais serão para eles os reais benefícios conquistados nesse processo?

PROF. DAVID FERNANDES: Em 2012 e 2013, alem dos alunos de graduação e pós-graduação do ITA e de pós graduação do INPE, participaram ou participam do projeto alunos da UFRN, UEL ,  UNIFESP-São José dos Campos, FATEC-São José dos Campos, UNISINUS e ETEP Faculdade de São José dos Campos.

Como referência, durante o ano de  2012, tivemos no projeto, em média, 10 estudantes de pós-graduação e 18 de graduação.

Os alunos envolvidos no projeto ITASAT são muito cobrados, pois temos muitíssimo trabalho a ser realizado, mas dentre os benefícios que posso citar para o estudante destaco:

a) Aprender a trabalhar em um projeto multidisciplinar, onde, uma alteração em um subsistema ou equipamento pode interferir em todos os demais subsistemas e equipamentos, por este modo as soluções técnicas devem ser negociadas com os outros;

b) Aprender a trabalhar com uma equipe de Engenharia de Sistemas, de modo que tudo concorra para se ter o Satélite ITASAT-1;

c) Aprender a especificar e cumprir requisitos técnicos;

d) Participar da preparação dos documentos das revisões, das revisões e depois do atendimento das recomendações do revisores;

e) Se comprometer com prazos;

f) Ter uma visão sistêmica de um projeto complexo; e

g) Aprender a administrar conflitos que surgem no trabalho em equipe.

Estudantes trabalhando em uma das salas do ITASAT no ITA

BRAZILIAN SPACE: Professor, quais foram às instituições envolvidas com esse projeto desde o seu início?

PROF. DAVID FERNANDES: Além dos alunos de graduação e pós graduação do ITA e de pós graduação do INPE, já participaram ou participam do projeto alunos da UnB, UNICAMP, UFRN, UEL, EESC-USP, UFCG, FEG-UNESP, UNIFESP-São José dos Campos, FATEC-São José dos Campos, UNISINUS, ETEP Faculdades de São José dos Campos e da TU-Berlin.

Da TU-Berlin participaram quatro estudantes de graduação, permanecendo no projeto seis meses cada um, com apoio do Programa UNIBRAL  da CAPES, que estava sendo desenvolvido no ITA e gerenciado por professores do Curso de Engenharia Aeronáutica.

BRAZILIAN SPACE: Professor é de nosso conhecimento que um dos grandes beneficiados com o lançamento desse satélite será o “Sistema Brasileiro de Coletas de Dados Ambientais”. O senhor poderia explicar aos nossos leitores a razão disso e quais são as cargas úteis do satélite?

PROF. DAVID FERNANDES: O ITASAT-1 terá quatro cargas uteis experimentais. Uma delas é um experimento científico do INPE relativo a um trocador de calor designado por TUCA. Outro experimento é uma plataforma com sensores MEMS da Universidade Estadual de Londrina (UEL), outro experimento (a ser confirmado) um sistema de comunicações entre satélites da TU Berlin. Temos ainda uma quarta carga útil experimental que será um Transponder Digital de Coleta de Dados que está sendo desenvolvido pelo INPR-CRN, com a colaboração  da UFRN. Esta ultima carga útil, apesar de ser experimental, poderá ser utilizada pelo “Sistema Brasileiro de Coletas de Dados Ambientais”.

Convém ressaltar que o Microsatélite Universitário ITASAT-1, não é um satélite operacional de prestação de  serviços, mas sim um satélite experimental científico. Logicamente que as cargas uteis podem ser utilizadas para diversos fins, tais como o Transponder Digital de Coleta de Dados  que voará no ITASAT-1.

BRAZILIAN SPACE: Professor é de nossa crença que para que as cargas úteis desse satélite fossem adequadamente alojadas foi necessário o desenvolvimento de uma plataforma que desse esse suporte. Existe o interesse de sua equipe e da AEB na industrialização dessa plataforma universitária para microssatélites?

PROF. DAVID FERNANDES: Desde a minha entrada no projeto, em 2009, a AEB sempre deixou claro que como o projeto ITASAT faz parte da Ação da AEB 4934 do Plano Plurianual – PPA, de “Desenvolvimento e Lançamento de Satélites Tecnológicos de Pequeno Porte” ele deveria gerar experiência para outras iniciativas do gênero, sejam elas no ITA ou em outras instituições de ensino, e que se levasse em conta que a plataforma ITASAT pudesse ser utilizada em outras missões de satélites universitários.

Quanto a industrialização dessa plataforma eu não participo e não tenho nenhum envolvimento com uma possível iniciativa neste sentido. O que eu considero mais importante é que se o projeto ITASAT-1 for bem sucedido, ele acarretará um nível maior de maturidade tecnológica de todos os envolvidos (estudantes, professores, pesquisadores e engenheiros) o que permitirá sem duvida o surgimento de iniciativas acadêmicas e ligadas a indústria.

Teste de uma interface de comunicações

BRAZILIAN SPACE: Professor é de nosso conhecimento que o microsatélite ITASAT-1 é o primeiro de um programa que deverá ter sequência logo após o lançamento do mesmo. Já existe alguma discussão em andamento em torno do projeto do ITASAT-2?

PROF. DAVID FERNANDES: Ainda não há discussão formal a respeito de um ITASAT-2, mais acredito que após a finalização do CDR estas discussão devem ocorrer.

BRAZILIAN SPACE: Para finalizar Professor, existe algo a mais que o senhor gostaria de destacar para os nossos leitores?

PROF. DAVID FERNANDES: Gostaria de destacar que o projeto ITASAT, tendo a AEB como promotora, o INPE como assessor técnico e laboratorial e o ITA como responsável pela construção e operação do Microsatélite Universitário ITASAT-1, é um projeto audacioso e complexo que envolve, além do ITA, uma serie de universidades e escolas parceiras, o que a meu ver dá uma relevância maior ao projeto.

O projeto tem três gerentes um da AEB, outro do INPE e um terceiro do ITA. Noto que o trabalho é harmônico entre todos nós com o objetivo de termos êxito neste projeto. As dificuldades que temos são de natureza operacional e técnica, que vão sendo superadas e vão trazendo um aprendizado contínuo.

Por ser uma iniciativa universitária, feito por estudantes, temos recebido, como é natural, apoio não só do INPE mas de Institutos do DCTA, tais como o IAE e o IEAv , que inclusive já usinaram partes  de equipamentos do satélite e do IFI que já colocou a nossa disposição a sua Câmara Anecoica para alguns testes.

3 comentários:

  1. As equipes envolvidas no projeto ITASAT-1,coordenada pelo Prof. David Fernandes, estão dando a real resposta, para aqueles que estão simplesmente sentados em brasília, de como se deve realmente trabalhar, com muito estudo, pesquisa, dedicação, e acima de tudo com parcos salários, a vedadeira contribuição para o progresso sustentável do PEB, realmente eles fazem a diferença, para os que não fazem nada,.. siplesmente nada, nem um peqeuno circuíto de escuta e gravação, disso eles têm medo! Estamos agora diante de um amplo desafio: Lançar ou não com o nosso foguete, genuinamente brasileiro. Mudar o processo de prioridades com o lançador é uma grande espectativa para todos nós.Isto porque mostramos ao longo de todos os obstáculos superados financeiramente e embargos dos tais americanos, que nos somos um povo capaz e inteligente.
    Este é o desafio informativo do blog: fazer com que todos os brasileiros, de cabeça erguida, digam: " O nosso BRASIL faz com qualidade. Vamos dar apoío, sequência e valorizar o trabalho de que produz realmente neste país de pioneiros passados e presente e transformar o PEB como exemplo para outros países que pensam, que somos bons só no carnaval e futebol, seremos um país melllllhor do mundo! Salve o nosso grande BRASIL!

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  2. Eu assinaria e garanto que levaria para um amigo meu que é aluno de engenharia aeroespacial na unb que poderia passar a petição para toda a turma

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  3. Tudo muito bom, só faltou uma visão de produto industrializado:

    Porque não oferecer a plataforma do satélite para a indústria nacional para produção em série e começar a planejar um novo ITASAT a cada ano?

    Claro que corremos o risco de o "governo" atrapalhar, mas temos que continuar tentando.

    Um satélite universitário por ano para o Brasil, acho até um objetivo razoável e plausível.

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