domingo, 10 de julho de 2011

Cinqüenta Anos no Espaço, Lembranças do Primeiro Vôo

Olá leitor!

Segue abaixo um artigo publicado na Revista Espaço Brasileiro (Abr, Maio e Jun de 2011), destacando os cinqüenta anos de atividades espaciais e os cinco anos do primeiro vôo espacial de um brasileiro.

Duda Falcão

Cinqüenta Anos no Espaço
Lembranças do Primeiro Vôo

Raimundo N. F. Mussi*

Raimundo N. F. Mussi
Vinte o nove de abril de 2006. O sol não tinha despontado. Era um dia muito espacial para o Programa Espacial Brasileiro – foguete Soyuz que levaria o cosmonauta brasileiro em sua viagem ao espaço seria, naquela manhã, posicionado na torre de lançamento.

Sai do hotel. Um vento frio e cortante acompanhava os primeiros sinais da luz do dia. Uma névoa encobria a região. Dei conta que estou no Cosmódromo de Baikonur, berço da gênese da conquista do espaço. Através da neblina via uma singela casa que a poucos dias havia visitado.

Permito-me, agora a viajar no tempo. Estou em outubro de 1957. As manhãs de outono antecipam a chegada do rigoroso inverno. Daquela casa sai um senhor de cerca de 50 anos, abrigado do frio e com um semblante tenso. Aquele dia poderia se tornar um marco na história humana. Sergey Korolev dirigiu-se ao sítio onde seria realizado o lançamento. A segurança era total, pois estava preste a culminar um dos mais bem guardados projetos da União Soviética, que poderia ser um fracasso ou uma vitória se precedentes. Sentia sobre seus ombros a grande responsabilidade de seu resultado.

O sucesso foi alcançado. O Sputnik, com menos de sessenta centímetros de diâmetro e pouco mais de oitenta quilos tornou-se o primeiro engenho humano, vencendo a força da gravidade, a chegar ao espaço. Os “bips” que emitia escoaram em todo o planeta, mas que os sinos das grandes catedrais.

O dia clareou um pouco mais. Ao lado da primeira casa, apareceu o contorno de outra bastante similar. Volto a viajar no tempo. Estou em 1961, quando naquela casa habitava o tenente da Força Aérea Soviética – Yuri Alekseyevich Gagarin. Em seus, recentemente completados, vinte e sete anos, estava prestes a realizar um dos maiores feitos da espécie humana.

A manhã do dia 12 de abril, final de inverno, estava bastante fria. Cercado por sisudos homens em grossos sobretudos negros, Gagarin se destacava em um alaranjado traje espacial. Passo a passo, se encaminhou para embarcar na minúscula espaçonave Vostok 1, que menor parecia ante ao gigantismo do foguete no qual estava acoplada em sua ogiva. Consciente do perigo que ia enfrentar, mas confiante na tecnologia utilizada e seguro do treinamento a que fora submetido. Quais seriam seus pensamentos nos minutos que antecederam ao disparo? A estranheza de um piloto de um vôo que não estaria sob seu controle ou a lembrança da cadela Laika, primeiro ser imolado ao altar do espaço?

Disparado o foguete, orbitou nosso planeta a cerca de 300 km de altitude. Um vôo de 108 minutos gravou indelével marco na história. Cinqüenta e cinco anos após um brasileiro, Santos Dumont, ter provado que o homem podia voar, Gagarin mostrou que o homem também poderia ir ao espaço.

O feito de Gagarin repercutiu em todos os países. Na União Soviética tornou-se herói nacional. Mais um “round” tinha sido vencido na “corrida espacial”. O próprio presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, em plena “guerra fria”, enviou um telegrama de congratulações.

O Sol desponta. Tradicionalmente, na mesma hora em que ocorreu o deslocamento do foguete que levou Gagarin ao espaço, iniciou-se o do Soyuz que levaria nosso cosmonauta. Ao acompanhar majestoso movimento, vem a minha mente a importância do vôo de Gagarin para as atividades espaciais. Mais recursos foram empregados e, com inédito esforço, os Estados Unidos, em 1969, levaram um homem a Lua. Paralelamente, as atividades espaciais assumiram novas dimensões, tornando-se importante ferramenta no imageamento do nosso planeta e ampliando sobremaneira os meios de comunicações. Mas, lamentavelmente, ceifaram algumas vidas.

Ao vislumbrar nossa bandeira pintada no foguete, elevei meu pensamento a todos nossos patrícios que, praticamente logo após o lançamento do Sputnik, vem arduamente trabalhando para que tenhamos assegurados o conhecimento e a competência para utilizar amplamente a tecnologia espacial.

Algumas horas depois, o foguete foi erguido para a posição de lançamento. O clima era festivo. As bandeiras da Rússia, do Brasil e dos Estados Unidos, paralelamente içadas, foram a mais cabal demonstração que a “corrida espacial” tinha se transformado na “cooperação espacial”.

Mais uma vez foi ressaltado o papel de Gagarin. Logo após seu vôo, visitou diversos países, inclusive os Estados Unidos. Em 29 de junho, pouco após seu vôo, rompendo procedimentos, pois naquela época o Brasil não tinha relações diplomáticas com a União Soviética, Gagarin fez histórica visita ao nosso país. Visitou o Rio de Janeiro e Brasília, fez diversos pronunciamentos, a multidões que foram ovacioná-lo. Muitos brasileiros ostentam o nome de Yuri ou Gagarin em sua homenagem.

Na ocasião foi condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul pelo presidente Jânio Quadros com as palavras “você abriu para a humanidade a ilimitada esfera do conhecimento...”. Ao partir, Gagarin levou entre as lembranças de sua visita um beijo da bela brasileira Sonja Gracie. Sua visita deixou em muitos brasileiros o desejo de seguir seus passos.

Dois anos após, nascia em Bauru o menino Marcos César. Naquele momento não sabia que seria a consubstanciação de palavras de Gagarin que o Brasil um dia poderia ter um cosmonauta. Quis o destino que Marcos Pontes não só viesse a ser o primeiro cosmonauta brasileiro, e que sua origem, educação e formação profissional fossem bem similares às de Gagarin.

Marcos Pontes, acompanhado pelos dois outros membros da tripulação – o russo Pavel Vinogradov e o norte-americano Jeffrey Willians, embarcaram na espaçonave Soyuz maior do que a que levou Gagarin ao espaço, mas bem menor que o ônibus espacial da NASA.

Após o lançamento, o acompanhamento do vôo é feito do Centro de Controle, na cidade que muito merecidamente recebeu o nome de Korolev. É impossível não fazer comparações com o vôo de Gagarin. As precárias comunicações de voz que dispunham eram agora substituídas por enlaces de voz e imagem, continuamente operantes. O vôo do nosso cosmonauta durou cerca de oito dias, mas sob condições bem diversas das que Gagarin teve de enfrentar em 108 minutos. Marcos Pontes e os demais membros da tripulação tiveram oportunidade de executar diversos experimentos, só possíveis de serem realizados no espaço pela anulação dos efeitos da força da gravidade.

O vôo de regresso de Marcos Pontes, com o ponto de queda precisamente calculado e com ponto resgate, contrasta com o de Gagarin, que ejetado da nave caiu de pára-quedas muitos quilômetros distante do local estimado.

Terminada a missão, é hora de regressar. Mas não sem antes, na Escola de Cosmonautas, na Cidade das Estrelas, despedirmos de Marcos Pontes e apresentar nossa admiração a Gagarin, certamente um senhor de minha idade. Caio na realidade. Não poderia fazê-lo, pois tragicamente em 27 de março de 1968 Gagarin tinha partido de nosso convívio. Restava-me, respeitosamente, reverenciá-lo em sua estatua que marca sua eterna presença naquele estabelecimento.

Ao depositar flores aos seus pés, olho para cima. Gagarin parece sorrir e dizer: A Terra é azul!

*Raimundo Mussi é formado em engenharia naval com especialidade em eletrônica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Foi intitulado mestre pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Foi professor da Faculdade de Tecnologia da Universidade de Brasília (UnB), especialista sênior do Departamento de Ciência e Tecnologia da Organização dos Estados Americanos (OEA), analista sênior do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e também do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Na Agência Espacial Brasileira (AEB) exerceu diversos cargos, entre eles o de chefe de Gabinete e foi Gerente de Projeto da Missão Centenário.


Fonte: Revista Espaço Brasileiro - num. 11 - Abril, Maio e Junho de 2011 - pág. 29

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